31.12.01

O que pensar no último dia do ano. Antes que tudo se estrague - mais - é melhor não pensar em nada. As pessoas acreditam que amanhã vai ser tudo diferente. Poderia bem ser. Poderia deixar de sentir certas coisas e me de me preocupar com tantas outras. Poderia muita coisa.

ESPIÃ
Estava sendo observada por uma garota de toalha na cabeça. Estava aqui pensando no que não é mais, em como é que vai ser. O corpo quente e sem taquicardia. Andar a pé pelas ruas da Urca, sentar naqueles murinhos em volta da Baía é quase dolorido. Faço o trajeto calada e séria, sem esboçar nenhum sorriso, achando tudo muito chato. Dá quase um alívio quando bate o vento. Porque o vento aqui na Urca é sempre perfeito. Assim como a rede quando está prestes a parar de balançar. Tenho vontade de estar em outro lugar. Não adiantaria. O que acontece neste exato momento é que não me sinto à vontade comigo mesma. Não dá me enganar fazendo a sobrancelha ou escolhendo a roupa que vou usar hoje à noite. Queria aquela felicidade de antes que me tiraram. A culpa é um pouco sua, sim.

No man is man enough to break my heart.
Billie Holiday por Fátima Sá

30.12.01

ESCONDE-ESCONDE
Tive que esconder a tal polaroid.

SEGUREI
Até onde eu pude. Mas não teve jeito. Ontem eu tive que chorar. Chorar muito. Tava um puta de um sol aqui. Hoje, começou a chover.

RIO DE JANEIRO, 30 DE DEZEMBRO DE 2001
Depois de um balanço superficial do ano em uma mesa de bar, eu volto para a casa da Andrea. É o meu porto seguro no Rio. Harmonia e crise. Muitos fins acharam um colo aqui. Hoje de manhã fiquei achando graça em sair de pijama com o Dudu e o Diogo para comprar cigarro. Ganhei sonho de doce de leite. E isso fez aquele momento do meu dia ficar mais feliz.

IMAGENS
Eu me pego tendo a impressão de que uma imagem vai ficar lá para sempre. Como a luz do teto da sala da Andrea refletida sobre o quadro. Parecia quase uma imagem eterna. De repente, uma imagem que eu nunca imaginei que se eternizasse aparece. Depois outra, outra. E uma polaroid reaparece, uma rede na Urca, um abraço bom. De repente, ouço uma música que eu também não imaginava que ficasse eterna. E outras mais. E me pego revivendo uma coisa que já acabou.

27.12.01

Essa história de passado é pesada demais.

BAÚ
Onde é que eu vou enfiar todas as minhas lembranças?

LAVANDA
Meu quarto está cheirando a lavanda. Pelo menos, melhor do que cigarro. Vou deixar a minha casa só pela primeira vez. Eu também estou só. Lembro da minha mãe no telefone, logo no começo, dando uma bronca em nome de meu pai, Erika, ele sempre diz que você entra de cabeça nos relacionamentos e isso não é bom. O mais triste é lembrar da voz interna me acalmando. Ele também se joga.

INCOERÊNCIA
Se era para tudo ficar bem por que eu ainda choro?

CHAVE
Eu só queria ter uma daquelas chavinhas para controlar o que faço, o que sinto, o que sonho. Poderia controlar meus pesadelos também e o arrepio estranho que eles causam.

MEDIDAS
Eu achei que ia sofrer pouco. Apenas o necessário. Ainda assim, acho que sofro menos do que se tivesse tomado outra atitude. Ou seja, poderia estar sofrendo mais.

Depois disso tudo, só o choro. Pesadelos me incomodam muito.

DEPOIS DO BANHO



ainda a dor, o vazio
essa foto faz parte do tanto de coisa boa
lembro da primeira visita, do debate com o maníaco colecionador de corações e da sensação de ver o parque pela janela
de ter visto tudo ao vivo
às vezes, tenho vontade de chorar, só de chorar
a primeira despedida foi perfeita, foi a cerimônia do chá
a segunda foi definitiva, sem boas lembranças
só que às vezes elas pipocam
as boas e as ruins

MAIS UM PARA A SÉRIE
de pesadelos. Sonhei que o Miguel fazia uma tatuagem em mim. Do lado direito do meu corpo. Era abaixo da cintura, entre a cintura e a bunda. Era um círculo de bolinhas. Isso mesmo. Eu me lembro da frase, chorosa, ao final: "Eu disse que não queria. Por que você não respeitou a minha vontade?"

23.12.01

CHOCOLAMOUR
Estava lendo agora um post perdido e fiquei com várias imagens na minha cabeça. De crianças que nunca tomaram um sorvete na vida diante de um em cima de uma mesa. Tem aquelas que se lambuzam, comem devagar e guardam na memória o sabor daquilo tudo. Tem outras que ficam tão excitadas que não sabem o que fazer, não sabem por onde começar, derrubam no chão. Algumas ficam quase envergonhadas, não sabem se tomam ou deixam lá na mesa. Outras acham que aquilo é demais e não são merecedoras. Podem apenas contemplar. Ou fazer pouco disso, afinal, nunca quiseram o tal do sorvete, não pediram. Depois o sorvete acaba - ou derrete porque foi deixado de lado. Algumas vão querer provar o sorvete de novo e, dependendo do esforço desprendido e outros fatores externos, conseguirão ou não. Outras ficarão esperando o sorvete chegar na bandeja quem sabe um outro dia. Esperam apaticamente, ou infelizes porque acham não vão conseguir (dá-lhe lamentação). Tem as que exigem de quem deu o sorvete um outro. Há aquelas que esquecem, sequer pensam nisso. Só depois diss tudo que você vai saber de fato como são essas crianças. Isso as torna melhores ou piores? Outra coisa a ser levada em consideraçao. Quem deu o sorvete queria fazer um bem para a humanidade e felicidade geral da nação, mostrar para os outros que é bondoso por dar um sorvete, ver a criança sorrindo, sair no jornal porque deu o sorvete, apenas queria dar ou estava cagando e andando para isso tudo?

CHUVA
A chuva que me deixou tão triste veio me lavar. Tem cheiro fresco. Tive as sete horas necessárias de piração (não quero estender a piração, já é uma palavra forte o suficiente para englobar tantas outras palavras) e até agora só consegui cochilar por uns quarenta minutos. O que eu fico pensando no meio disso tudo é que tenho que fumar menos, voltar à terapia - com o mesmo psicólogo - para resolver algumas coisinhas (as tais conclusões que eu tirei da conversa com a Aninha), cuidar da minha saúde e começar a tocar os meus projetos. Esse post foi escrito em um momento de lucidez. As coisas são interessantes e sedutoras quando não atingem o limite da patologia, não posso deixar ela potencializar o que eu já tenho para resolver. Eu não preciso ter acesso a esse mundo por meio de outra pessoa. Fiquei pensando muito nos altos e baixos. Como uma pessoa que te deixa plenamente feliz em alguns momentos consegue ajudar afundar a sua auto-estima? E por que é que eu me deixei levar? No fundo, eu sabia. Eu sempre soube, antes mesmo de qualquer sinal ou placa de aviso. Por isso não posso sofrer muito/tanto. Apenas o necessário. É exatamente isso que eu tenho para resolver agora. Porque eu me deixo levar... Será que apenas o descontrole pode conduzir ao viver tudo intensamente? Ou seria possível viver intensamente dentro de um certo controle? Parece paradoxal. O mais interessante disso tudo é que o equilíbrio é simples, não questiona. Só faz viver bem.

24 HORAS
Ainda não dormi. Pelo menos não dormi chorando, nem acordei chorando.

Tive uma madrugada obsessiva. Talvez tenha sido a necessidade de um último contato. E, ironicamente, me deparei com isso.

Acho que nunca tive meus desejos afetivos completamente preenchidos. Eu simplesmente tinha material o suficiente pra me manter esperançoso que um dia ia ter o tanto que eu queria. Nunca adiantou pedir, espernear, implorar, racionalizar, apelar pro lado humanitário dos outros. Eu sempre sentia que faltava.
Faltava um gesto.
Faltava um carinho.
Faltava um afago no rosto.
Faltava uma palavra de afeto.
Faltava um colo.
Faltava um ombro mudo, que não me repreendese quando eu só tava precisando de um pedaço de gente pra poder deixar meio úmido.

De quem é a culpa? Minha? Dos outros? Das minhas expectativas ou da falta de capacidade das pessoas de se doarem?

TRISTE
Queria que a única coisa triste do dia tivesse sido encontrar o biquíni pelo qual me apaixonei um número maior que o meu.

CHEIROS
Eu e a Ana ficamos refletindo sobre os perfumes que paramos de usar. Porque eles sempre ficam associados a uma determinada fase da vida. Quando comprei a colônia de Ginger & Lime eu queria lembrar do cheiro do sabonete da Body Shop no banheiro da Silvana. Assim como aquele incenso que queimava naquela sala úmida e fria da casa dela em Lisboa. Os sentimentos ligados a esses cheiros não existem mais, não com essa melancolia. Porque depois ficou associado ao desprendimento e não mais àquela saudade. E a descobertas. Como o body butter de Hemp traz a lembrança do primeiro banho, junto com o xampu de hortelã. Por isso odeio quando algum homem usa o perfume do meu pai. Tudo fica muito confuso. Eu gosto quando um cheiro me surpreende e me leva a um passado tão distante e permeado de fatos que eu quase tinha esquecido. O problema é quando a lembrança não é boa. Porque eu revivo tudo através do cheiro.

22.12.01

LUSH
Eu comprei um xampu de coco para cabelos secos e não me dei muito bem com ele. Também, olha o que vem escrito na "bula": "Feito com creme de cocô inserido em uma base de alga marinha e proteína de soja". Que nojo!

COZINHA
Não coloque nunca duas mulheres muito amigas juntas em uma cozinha. Elas podem cozinhar, fazer comida de bruxa, fazer feitiço, recuperar memórias, traçar o histórico da vida amorosa tomando café da manhã (e chegamos à várias conclusões) e também pintar as unhas.

O NOME
Ploc ploc é o barulhinho do salto alto. Uma coisa de "bichinha poc poc" como diz o Miguel Sanches. Por isso, recupero a poesia da época em que abri esse blog e ele era secreto.

20 de junho de 2001
PLOC PLOC 2
dá vontade de escrever uma frase e depois
PLOC PLOC
como se fossem gotas
eu gosto de gotas
PLOC
ou chiclete estourando
PLOC PLOC
sapato de salto
PLOC PLOC PLOC
balinhas estourando em boca de criança
PLOC
a bicha andando
e eu aqui, achando que estou fazendo poesia

ANA
"Tem épocas que eu fico à flor da pele. Até propaganda me faz chorar."

OPERAÇÃO RESGATE
Ontem, o Paulinho chegou do México e me levou tomar um iogurte à meia-noite. Deixei as coisas do Miguel na casa dele ontem. Hoje foi o dia da Aninha. Ela me deu de presente uma foto do Chiquinho e do Fred. Quase chorei. Louco esse momento da minha vida. Qualquer demonstração de afeto tem me feito chorar. Até o bilhete da faxineira. Eu sabia que ela ia amar a pimenteira!

ZÍPER
Resolvi abrir a minha bolsa. Comprei uma bolsa nova. Na verdade, troquei pela bolsa que a Fátima me deu. Agora estou com uma lata de Campbell's que parece uma bolsa térmica. É uma necessaire, mas eu tô lá ligando para isso?