FIM
Só para esclarecer.
Muitos não entenderam.
PLOC PLOC
a bolsa escancarada
26.4.02
15.4.02
DE NOVO
mais uma poesia
mais um fim
Memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Carlos Drummond de Andrade
O KIKKS (deletado) nasceu como um bloco de notas. Idéias, pequenas crônicas, imagens, curta-metragens. Arquivo secreto. Ele foi mostrado a um amigo que comentou o estilo da escrita, as frases curtas, entrecortadas. Depois, a um desconhecido. Faz quase um ano. Quando o desconhecido virou bastante conhecido, o KIKKS foi morto. Para voltar kikks, bastante lido. Escrevia os meus fantasmas no PLOC PLOC. Foram todos apagados um dia. "Não se mexe em bolsa de mulher." Os fantasmas voltaram ao PLOC PLOC quando kikks teve um fim. O PLOC PLOC ainda era secreto. Até o dia em que o desconhecido-conhecido o descobriu. O PLOC PLOC é realmente a minha bolsa escancarada. Onde estão todos os meus fantasmas e inseguranças. Registrou a explosão da minha crise. Tive que jogar muita coisa fora da bolsa pesada, lidar apenas com o essencial que não é percepção, acusação, mérito, defeito, medo, fragilidade ou recado torto.
O essencial, agora, é quase um vazio, como o caderno de capa dura. Há três dias, me vi escrevendo em um caderno de capa dura que ganhei da minha irmã. Ban-cha, letras pretas sobre papel branco e cheiro de lavanda. Quase uma cerimônia do chá. Os japoneses faziam deste momento o mais especial na vida de duas pessoas, pegavam a água mais fresca do riacho, colhiam as folhas de chá na manhã, colocavam o convidado para se sentar no canto mais nobre da casa, e serviam o chá na cerâmica mais cara. Tudo meticulosamente preparado. Por isso era tão especial. Para ser a melhor lembrança do encontro entre duas pessoas, caso nunca mais se vissem.
Como Ponyboy dizendo "Stay Gold" para Johnny antes da sua morte em Outsiders, um dos romances preferidos da minha pré-adolescência. Como uma certa despedida na Praia Vermelha, em Salvador. Como a esquina e várias outras últimas vezes. Por isso, a poesia do Drummond.
MESTRE
Teve uma época em que a Globo era boa. Ela tinha um time formado pelos melhores documentaristas do Brasil no Globo Repórter. Tá tudo na mostra É Tudo Verdade (retrospectiva brasileira). Pena que os horários (e locais) são cruéis para quem vive na senzala.
COVERGIRL
Já fiz algumas capas. Com manchetes bombásticas, zombando de órgãos públicos, com artistas famosos. Já fui capa. Mas esta é diferente. Uma capa de projeto, de idéia. Na verdade, só um pedaço de capa. Aos poucos, vou me reconstituindo a partir de pequenos pedaços.
13.4.02
CHEIROS
Hoje o Hermés veio me contar uma história de cheiros. E eu entendi muito bem o que ele quis dizer. Tem algumas afinidades que só se tem com algumas pessoas. É aí que o bicho pega. Com o tempo, você descobre outras afinidades com outras pessoas. Mas as específicas... Bom, deixa pra lá.
PALAVRAS
dão um certo conforto. Na hora de dizer e na hora de ouvir. Mas há palavras que, por um motivo ou outro, ficam esquecidas como uma frase bonita que foi dita um certo dia, em um certo momento, para tornar o diálogo mais coeso. O que era correto de se dizer. Na prática é tudo muito mais difícil. E são poucos os que assumem isso logo de cara.
CERTEZAS
Cada vez mais a certeza se aproxima. E junto com ela, a dor. Eu sei ler as entrelinhas. Pelo menos, este tipo de entrelinha. Isso é o que mais me machuca. Porque eu sabia que um dia ou outro ia ler uma entrelinha deste tipo. Só não achava que ia ser tão cedo.
12.4.02
É ISSO
Falta de noção – e insensibilidade – me imobilizam. E olha que hoje eu disse que comeria pimenta como se fosse azeitona.
11.4.02
DORES
As dores físicas sempre são levadas muito mais a sério pelas pessoas. O problema é quando a ela se juntam todas as outras. Quando tudo o que você quer é um colo quente. E se dá conta de que apenas poucas coisas restaram.
10.4.02
TARÔ
Nos últimos dias me deparei com uma bruxinha e com uma bruxona. As duas disseram coisas lindas para mim. Uma delas disse algumas coisas difíceis de ouvir. Que podem ser ótimas e sofridas. Ao mesmo tempo que era tudo que eu queria ouvir, era tudo o que eu não queria ouvir.
FODA-SE
Nem todo mundo sabe ligar a tecla "foda-se". Essa coisa de entrar por um lado e sair pelo outro. Eu acho que nunca tive essa capacidade. Quando experimentei (fui induzida a?), gostei. O problema é que ainda não tenho a seletividade, o controle da técnica. O outro problema são as situações em que isso não funciona, em que desmonto completamente.
BAIXA
Hoje eu caí de novo. Irritação extrema. Pensamentos chatos que vêm e vão. De repente, me vi fazendo aquelas perguntas que deixam tudo pior. Mais do que suposições, são fatos. Claro que todo mundo tem o direito de tudo. Mas se atitudes, mesmo aquelas que não têm absolutamente nada a ver comigo, denunciam algo que tem muito a ver comigo e que me magoa... Bem, ninguém sabe exatamente do que estou falando. E eu queria realmente esquecer.
9.4.02
MUKASHI MUKASHI
Shiatsu com lenda japa. A tia Yoshi-chan tem uma caixa de madeira parecida com a do Urashima Taro. Lembrei dos livros de páginas duras com figuras coloridas. Todas as histórias começavam com mukashi mukashi (era uma vez...). Ele bem velhinho abrindo a caixa cheia de fumaça na última página. E a propaganda da Varig.

